Menu Fechar

Crónica 1      Crónica 2      Crónica 3      Crónica 4      Crónica 5

 

Crónica 1 – extraída de “Adágio”, nº11/12 – Agosto/Setembro de 1982

Para os que nasceram depois da segunda metade deste século ( não se trata de horóscopos … ) é natural, naturalíssimo mesmo, que não se apercebam das transformações e facilidade que os meios de locomoção de hoje dispõem. É possível até que alguns mais novos considerem que nos devíamos deslocar ainda mais velozmente, onde quer que fosse. Claro que, para outros, que têm de tratar de uns assuntozinhos nos Açores, almoçar na Madeira e esperar “pacientemente” o jantar, de volta a Lisboa, deve ser na realidade muito enervante … Isto, para quem tem pressa de viver. Sim, porque para os mais calmos, para os que têm de viver o seu dia a dia nesta superfície térrea, o estafado uso do lento automóvel, a menos que se apliquem o mais rapidamente possível as indispensáveis asas, terão de continuar a suportar os malditos engarrafamentos, responsáveis absolutos da nossa falta de cumprir horários.

Oh!, a celeridade, o mais apreciável fruto que se devora numa breve existência. A glória da época!…

Mas… (aqui o mais é outro) para os que nasceram três ou quatro décadas antes do supra citado meio século, esta evolução rápida, não sendo um sonho, deixa-lhes estranhas recordações. Não quero dizer gratas … nada do tempo do Bota de Elástico. Longe vá o agouro! Lagarto, lagarto, lagarto …

Eu, filho dessa época, que facilmente me agarrei ao estribo dos que cavalgam o euforismo de hoje, recordo com prazer a fleuma, a lentidão, a paciência e, porque não, talvez a indolência com que se moviam e decidiam certas pessoas. Estou a lembrar-me precisamente daquele vaqueiro (boieiro ou carreiro, como queiram), o Ti Lourenço, horticultor que tinha uma quintinha mesmo por detrás da antiga sede da nossa Sociedade (na Rua Dias Ferreira).

Todos os dias este homenzinho (vaqueiro) saía dali, por volta da meia-noite, com o carro de boi carregadinho de hortaliça com destino ao mercado geral, na Praça da Figueira, onde só chegava de madrugada. Nessa longa jornada de tortuosos e solitários caminhos ao passo do pachorrento animal… Bom, ao passo é como quem diz, porque distraído a chupar o seu cigarrito de embrulhar, quando dava por si já se encontrava uma boa centena de metros à frente do seu dengoso companheiro. Voltava atrás, aguiloava o bicho para o aligeirar (como quem acelera hoje a fundo no automóvel) e, alcançado o destino tinha na realidade percorrido três ou quatro vezes a distância entre os Olivais e o centro da cidade. Comparar? As coisas … eram assim! Paciência e … muita resignação.

Há quem afirme que andar a pé é salutar. Este, fazia-o por imposição da vida. Ossos do ofício! Coisas …

Embora as rodovias da época, no nosso bairro, não fossem fáceis havia quem, apesar de dispor de um pequeno meio de transporte próprio, dele abdicasse, por razões que não apurámos. Vejamos, existia em S.Cornélio, próximo do cemitério local, uma oficina de serralharia mecânica cujo proprietário, Abel de seu nome, mas geralmente conhecido por Ciopa, possuindo embora um veículo, genuíno ao tempo, fazia maratonas consideráveis ao lado do seu animaleco. Ignoro a proveniência do epíteto de Ciopa mas recordo, sem intenções depreciativas, que quando se topava com alguém enodoado, com as habituais manchas de óleo e ferrugem que caracterizavam o nosso artista, logo era apodado de Ciopa. É certo que a ganga ou zuzarte era o tecido corrente usado por quase todos os obreiros desse tempo que, no entanto, caprichavam no traje domingueiro, lavadinho, pespontado e bem vincado. Não era o caso, diga-se de passagem, do nosso ilustre mestre.

Assim, o senhor Ciopa deslocava-se à capital a pé com a carrocinha e respectiva mula pela mão, quer para fazer depósitos bancários (garantido o seu “pé de meia”, creio), quer para a aquisição de materiais, entrega de encomendas, etc …

Pois! … eram assim as coisinhas das típicas gentes de então.

Henrique Ramos Pais