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Crónica 5 – extraída de “Adágio”, nº17 – Fevereiro de 1983

Existiu no Olivais uma figura muito popular,e por isso muito conhecida, não por más qualidades que tivesse, mas porque se popularizou devido às permanentes libações que fazia em honra do Deus Baco, mas era um homem inofensivo, e nada tinha de tanso, como adiante se verá.

O mal que fazia era a ele próprio,pois era um freguês assiduo de todas as tabernas que existiam nos Olivais e o seu copo preferido era o decilitro.

Porém, como decilitrava constantemente,andava quase sempre embriagado a ponto de cair muitas vezes por esses caminhos que utilizava para se dirigir a casa, e ficar noites inteiras por lá, tapando a cabeça com o casaco e defendido pelo seu cão, o “Pouca Tripa”, mas de tal maneira que as rondas que a Policia nessa época fazia por esses caminhos, encontrava muita dificuldade em o identificar, porque o “Pouca Tripa” não consentia que tocassem o seu dono.

Morava o protagonista desta história,mais ou menos no local onde hoje existe o quartel do RALI, próximo à antiga Encarnação, num local designado Casal da Barroquinha, creio que já não existe, e onde cultivava uma pequena quintarola e nela criava porcos para vender.

Chamava-se o personagem Tito Jaime Borges e era cantoneiro de 1ªclasse, de valas, na Câmara Municipal de Lisboa.

Em certa altura da sua vida,por já lhe custar andar metido nas águas das valas, serviu-se da influência de meu pai e foi transferido para cantoneiro de estradas o que lhe provocou uma gratidão manifestada por presentes de produtos de sua lavra, tais como: figos, cerejas, uvas, etc.

Ora um belo dia, os responsáveis pela organização das Festas que anualmente se faziam nos 01ivais ao Mártire S.Sebastião, tendo-o encontrado, lhe fizeram esta pergunta: “Tito,que é que ofereces este ano para as Festas?” – ao que de pronto respondeu : -um casal de porcos!

Porque a oferta era tentadora, logo ali ficou combinado o dia e a hora em que os da festa deveriam ir a sua casa para recolherem tão valiosa oferta.

E no dia combinado lá se apresentaram com uma carroça e cordas para trazer os porcos. Casualmente, fui testemunha deste caso, pois também fui na carroça(devia ter 12 anos), e ao baterem à porta da casa do Tito, logo este apareceu dizendo que esperassem um pouco, pois ia buscar os porcos.

Passado pouco tempo apareceu o ofertante, transportando na mão um cabaz que logo entregou a um dos festeiros, os quais com certo espanto e surpresa pelo tamanho do cabaz, depressa deduziram não ser possivel conter um casal de porcos, no que se enganavam.

Aberto logo o referido cabaz, ficaram todos estupefactos, mas sem qualguer razão para dizerem qualquer coisa,porque na verdade a promessa estava cumprida, apenas com a diferença que os porcos eram na realidade porcos mas da Índia, não deixando por essa razão de ser um casal de porcos autênticos.

Eu creio que o Tito no momento da sua promessa estaria muito carregadinho e não pensou bem no valor da oferta que fizera, mas depois, quando o seu cérebro já estava mais desanuviado reflectiu melhor , e encontrou esta genial solução, pois assim não deixou de ser um homem de palavra, e serviu melhor à sua condição de homem pobre.

Cumprira o que prometera, não havia dúvida, pois deu na realidade um casal de porcos, isso é que ninguém poderia negar …

O caso foi muito comentado nos Olivais nessa época durante muito tempo, pela sua excentricidade e graça, porém os festeiros, que foram personagens deste caso, é que não deviam ter achado graça nenhuma, parece que estou a vê-los, ficaram com uma “cachola” e ainda por cima não puderam dizer nada.

M.Martins Alves