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Crónica 3 – extraída de “Adágio”, nº16 – Janeiro de 1983

Outras coisas doutras gentes noutros tempos roçavam por vezes as raias do insólito, isto não comparando com os destrambelhados “Jogos sem Fronteiras” (para mal já basta o que basta).

Antigamente, não quando a mulata era a rainha, nem tampouco da era do Marquês de Pombal e respectivo séquito com as suas farfalhudas, faustosas, reluzentes e higiénicas cabeleiras (postiços ou não, não vem ao caso) a par das modernas desgrenhadas, ensebadas, mal tratadas e algumas, quem sabe (?) parasitadas na cabeça de certos meninos pretensamente “Bem”. Bem, adiante que isto dava pano para mangas …

E já que estamos a falar de cabelos, nas coisinhas dos nossos velhos tempos, que apesar de tudo não é assim tão longínquo, aqui, neste solitário bairro, recordando, que era assim dum praxismo quase irreprimível no que dizia respeito ao periódico e eficiente corte de cabelo e, ai aquele que deixasse passar as regras e se descuidasse que a guedelhas mal lhe cobrissem as orelhas, oh lá lá !, não faltava o assédio da malta com os piropos da ordem: “Vai cortar o cabelo gatuno”, “Estás mal como o baeta?”, “Se o Custódio da Dores te apanha …” (este era um dos mais incompetentes agentes policiais retirados do seio dos ladrões para melhor reconhecimento dos delinquentes e peludos da época), ou então: “Já tens material para uma boa almofada”, ou ainda, “Com umas caninhas já dava um bom caramanchão”, etc, etc.

A parolagem como eu, claro, lá seguiam à risca a sistemática missão, às vezes bastante contrariados, de se verem forçados a livrarem-se do “cachecol” que tanto jeito fazia nos dias de Inverno, por imposição da “lei” da súcia. Era da praxe e … pronto.

Mas a questão mais estranha ligada a essa quase imperiosa regra era talvez a tacanhez ou pecha do sítio, porque depois do aparatoso e até brioso trabalho do respectivo fígaro, todo perfumadinho e penteadinho, o “ilustre” cliente, a despeito da mordacidade usual nos mirones arruaceiros, por querer dar um ar menos brioso, tinha o cuidado de se desguedelhar para se livrar do mimosear de carolos daqueles que os esperavam ou encontravam como que a premiar um acto tão solene.

Enfim … eram assim as coisinhas do nosso tempo.

Cada um divertia-se como sabia …

Apesar de tudo, e porque nem tudo é mau, podíamos regozijar-nos do nosso bairro ter sido um dos maiores de Lisboa e 1º da capital com as suas famosas e produtivas quintas que alimentavam meia capital, os pomposos nomes das artérias da periferia da igreja matriz, o seu centro populacional a começar na Praça da Viscondessa, os célebres nomes de Conselheiros ainda hoje existentes na toponímica local, além de outros recônditos lugares com pousadas palacianas para lazer e repouso de personagens brasonadas.

Falando de artérias será bom não esquecer uma quase principal, que apesar de não ter nome titular, pertence-lhe a honra de um grande industrial de estamparia – rua Alves Gouveia.

E já que falei num nome tão conhecido, principalmente pelos filhos da terra, não só pelos postos de trabalho que explorou, mas também como grande proprietário de enormes terrenos que circundavam o bairro, bons e sólidos edifícios, assim como também de vastos pardieiros, os quais lhes ficaram a perdurar algumas memórias da sua faceta.

Já que dos fracos não reza a história, ao acaso aqui fica uma, que apesar de ser verdadeira, tem qualquer coisa de revelador …

– O Inquilino (dum desses pardieiros): Senhor Gouveia, venho pagar-lhe a renda e ao mesmo tempo lembrar-lhe um pedido …
– Gouveia: Muito bem (já com o recibo trocado por moedas) – Queira dizer …
– O Inquilino: É que já há muitos anos lhe venho fazendo o pedido de ver se me dava um jeito ao telhado, que mete água por todos os lados e como este ano o Inverno tem sido tão rigoroso, tem sido um sarilho dos diabos. A água entra por todos os lados, já não tenho mais vasilhas, para evitar o alagar de tanta água. São alguidares, tachos, celhas, bispotes … eu sei lá … e depois aquelas músicas infernais do pingo-pingo. Quando não é bem em bica fora, o que escorre pela parede … já nem tenho trapos que cheguem para a ensopar … É um verdadeiro inferno, um verdadeiro inferno, Senhor Gouveia …
– Gouveia, (bonacheirão como sempre), rindo alheio à desgraça dos outros: Então o que quer mais a senhora? – Renda barata, água em casa e ainda por cima uma excelente orquestra, que é que a senhora quer mais?

O diabo do homem tinha mesmo graça, não tinha?

Este não era de cá, apareceu aí com uma mão atrás e outra adiante, como soe dizer-se. Uma fabriqueta … industrializou-se e … as pessoas vão-se, as coisas ficam e outros(?) … gozam!

Ainda bem que nos jazigos não chove! […]

Henrique Ramos Pais